Como matei Ray Bradbury

(publicado dia 28 de outubro de 2012 no meu antigo blog)

(baseado em fatos reais, e em uma dica de Pablo Gobira)

Antes de mais nada, devo contextualizar a questão para o juri. Dizem que o ABC da ficção científica era composto por Asimov, Bradbury e Clarke.

O A e o C já haviam batido as botas e se tornado lendas. Na noite do dia 05 de junho, o B era ainda a única divindade viva dentro do gênero. Ainda não era um deus ex-machina.

O mundo acreditava que Bradbury estivesse vivo – era o que estava escrito em enciclopédias e wikipedias. E estava, ainda. Quanto a mim, sequer sabia que ele era um deus da FC. Ou melhor, sabia de “ouvir falar”, mas não conhecia sua liturgia literária.

Na noite de 5 de junho, procurei informações sobre Bradbury no google. Porque? A faísca do interesse foi acesa por um livro do autor chamado O Zen e a Arte da Escrita.

Ao ler trechos dele, desinteressadamente, me peguei seduzido por seu enlevo. Basicamente, é um livro sobre as razões da escrita: porque e como fazê-la. O alto nível das considerações me faziam crer que Bradbury deveria ser, de fato, um autor instigante.Além de ser o grande ídolo de um dos meus escritores favoritos, Neil Gaiman.

O google, como sempre, me forneceu a ficha corrida do homem, e me surpreendeu não só que estivesse vivo, aos 91 anos, mas que também continuava em plena atividade literária. Realmente um deus da FC.

Eis que no dia 6 de junho, cheguei à rodoviária de Juiz de Fora, e com muito custo consegui achar uma passagem de ônibus disponível (véspera de feriado). Caminhando rumo à plataforma de embarque, dei de cara com uma notícia transmitida no telão central, inacreditável: morre Ray Bradbury.

Como podia ser? Tinha me interessado por ele meio que “do nada”, um dia antes! Fiquei em estado de choque. Seria uma falha na matrix?

Não sei se tenho culpa nessa história. Em minha defesa, alego a sincronicidade junguiana, a lei da atração, carma, e outros fenômenos que parecem ter saído de livros de ficção científica.

Se essa evidência não colar, vou ter que retroceder ainda mais no tempo. Acho que tudo começou há uns anos, quando ergui perigosos tótens (quais deles não seriam perigosos?). Depois de uma infância devotada aos heróis de quadrinhos e a todo tipo de ficção com elementos fantásticos, mágicos e extraordinários, eis que eu tinha sido picado pelo vírus do realismo.

Passei a gostar de uma literatura mais calcada no cotidiano, de cinema noir, quadrinhos adultos, e a repudiar coisas que se distanciassem muito disso. Talvez precisasse gostar de coisas sérias por estar me levando muito a sério, vá saber.

Com o tempo, esses tótens foram perdendo seu magnetismo, e me dei conta de que tanto o realismo quanto o absurdo dentro da ficção são feitos do mesmo barro. São diferentes só enquanto gênero, mas o caráter ilusório é tal e qual. Ambos só se tornam bem construídos e verosimilhantes quando o autor consegue amarrar bem sua trama. No fundo, eu tinha ficado “de pirraça” de muitos autores que poderiam ter tanto a me dizer.

Reconciliado com alguns ídolos da minha infância, novamente tratei de ampliar meu leque de leituras, e foi aí que o B do ABC foi aparecendo aos poucos pra mim. Primeiro quando li um artigo que tratava de escritores de ficção científica que transcenderam o gênero, munidos de perspicácia e de genuínos méritos literários. Bradbury era citado com louvor.

Meses depois, ao ler o livro de contos Coisas Frágeis, do britânico Neil Gaiman, me surpreendi ao vê-lo tecer infindáveis elogios a ele, e se referindo ao norte-americano como “um mestre da arte”. Por fim, eis que vivenciei o enigmático episódio do dia 05 de junho.
        
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Julgamento encerrado.

Agora é botar o leitor a par do veredicto. A promotoria entendeu que eu deveria ler Crônicas Marcianas para me redimir da absurda lacuna que arrastei durante anos. Para poupa-los do meu depoimento final, basta dizer que concordei com o júri sobre o grande valor da prosa bradburiana.

No presente momento, minha pena já se encontra cumprida. A leitura de cada uma das peças que compõem Crônicas Marcianas me fizeram refletir sobre o delito, e a constatar o quanto foi equivocado ignorar um escritor de tal calibre.  

Apesar dos pesares, percebo que foi inusitado e mágico ter me encantado pela primeira vez com um texto de Ray Bradbury talvez no exato momento em que ele se despedia do nosso planeta. E agora, enquanto ele provavelmente descansa numa sonda espacial ou em um universo paralelo, continuo a caça de Fahrenheit 451 e outras belezas.

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