A crise universitária dos EUA, e suas lições para o Brasil

Em tempos de professores espancados por quererem direitos básicos, é oportuno assistir ao documentário Torre de Marfim, lançado esse ano, que escancara o tamanho da crise nas universidades americanas.

Diferente do Brasil, onde a falta de condições para os professores trabalharem acaba afetando também os alunos, nos EUA o grande pepino fica só com os alunos. Por “pepino”, me refiro não a um déficit de conteúdo, mas sim às dívidas que eles contraem. Porque, diferente daqui, as universidades públicas e privadas lá cobram uma anuidade, que, ao longo do século XX teve um aumento de mais de 1000%. Somada a dívida de todos os alunos e ex-alunos do país, nos deparamos com a absurda cifra de mais de um trilhão de dólares.

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O filme mostra casos de alunos que se formam com dívidas de mais de 100mil dólares. Uma estudante conta que, mesmo com mestrado, não consegue empregos à altura de sua formação, enquanto os cobradores ligam sem parar. Caso ela queira ter filhos, a aterrorizante perspectiva é a de que eles herdem sua homérica dívida (que não para de crescer por causa dos juros).

Em meio à tamanha crise do setor educacional, era normal esperar que aparecesse alguém com senso de oportunidade, e a bola da vez em meados de 2013 caiu para empresas como Udacity, promovendo o que eles chamam de Grandes Cursos Abertos Online. As aulas via you tube pareciam ser a tábua de salvação do ensino americano. Mas… com taxas de aprovação que eram de aproximadamente 20%, a falta de um professor presencial ficou evidente.

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Nos EUA, eles tem seus professores em alto respeito, e pagam bons salários. Assim, foi possível manter um alto nível de seu corpo docente, sem contar o leque super variado de universidades por todo o país: algumas no formato de “internato” unisex, outras mais “festivas”, algumas comunitárias mais modestas, e há até alternativas como o Thiel Fellowship, que não é universidade mas oferece “por fora” oportunidade de conhecimento e interação humana (sem o ônus da dívida, e nem o diploma universitário).

Apesar disso, a crise é gigantesca, e ela passa pelas medidas privatizadoras tomadas por Ronald Reagan no fim dos anos 70, primeiro como governador e depois como presidente. Ele acreditava que o estado não deveria “subsidiar a atividade intelectual”, e tentou até mesmo acabar com o Ministério da Educação.

No Brasil, nossa crise é muito mais complexa, envolve problemas o sucateamento das instituições, e, acima de tudo, a desvalorização do professor como trabalhador, como cidadão, como agente de mudança na sociedade. E, como se não bastasse, vez ou outra ventila-se a ideia de privatizar nossas universidades, copiando um modelo que, já no presente da grande potência mundial, agoniza dívidas que alcançam seus 15 dígitos.

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Ao longo do filme, diversas pessoas questionam o futuro da universidade, questionando se este é um modelo falido ou válido para a circulação de saberes e vivências de aprendizado. Em vez de uma resposta pronta, o filme mostra de maneira dinâmica como os EUA estão lidando com isso, em termos teóricos e práticos. E é bem evidente que, crises à parte, não surgiu ainda uma alternativa que provasse estar à altura da tradição e do alcance das universidades. Mas existem urgências que precisam ser sanadas rápido: basicamente, envolve seus modelos administrativos, suas fontes de financiamento, e um acesso para estudantes de todas as classes e origens – aos moldes vigentes das primeiras universidades americanas nos séculos XVIII e XIX.

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