Agamben e a Inoperosidade

[Como o acaso produz insights]

Deixei para ler hoje um texto que já tinha salvo em meu computador há alguns dias. É uma entrevista com o filósofo italiano Giorgio Agamben. Cada trecho das suas respostas tem um valor especial, de maneira tal que me parece impraticável destacar isso ou aquilo .

Só que, ao executar a tarefa cotidiana de “me perder” na timeline do face, me deparei com um link que produziu um diálogo imediato com uma das respostas que eu lera há pouco na entrevista. Trata-se de uma arquiteta grega que manipula objetos de uso doméstico, como regadores, garfos, pratos, etc, deturpando seus usos mas mantendo suas características.

O caráter de utilidade do objeto é esvaziado, fazendo dele uma peça de arte. Porque, afinal, a arte não é nada mais que descobrir as potencialidades da inutilidade; ver beleza em tudo aquilo que não envolve atividades de sobrevivência ou reprodução. Arte é dançar com vazios, brincar com lacunas e abismos.

Agamben conceitualiza isso como inoperosidade, algo que, a princípio, parece difícil de compreender, mas que as leituras vão revelando pouco a pouco, como nesse trecho:

“No mundo antigo, a existência estava ali – algo presente. Na liturgia cristã, o homem é o que ele deve ser e deve ser o que ele é. Hoje, não temos outra representação da realidade do que a operacional, o efetivo. Nós já não concebemos uma existência sem sentido”.

“O que não é eficaz – viável, governável – não é real. A próxima tarefa da filosofia é pensar em uma política e uma ética que são liberados dos conceitos do dever e da eficácia.”

O ser humano não pensa mais em si mesmo como sendo apenas humano. Ele é definido, em nossa sociedade, através de sua utilidade operacional: seu emprego, seu cargo, seu potencial de trabalho, sua mão de obra, seu salário, ou a etiqueta do seu terno, a marca do carro na garagem, ou pelo lustre da graxa em seu sapato.

A utilidade fala pelo humano, ainda que a utilidade sirva a outra finalidade: metas, planejamentos, cronogramas. Trocando em miúdos, Agamben diz que o homem tem sido confundido com seu currículo. A vida é substituída pelo “vitae”, signo arbitrário grafado no papel, e o diploma na parede se torna um altar do indivíduo consigo mesmo.

O filósofo é incitado pelo seu entrevistador à aprofundar essa ideia, e é citando essa resposta que encerro essa minha reflexão sobre novas formas de refletir sobre a não-atividade humana:
 
“A insistência no trabalho e na produção é uma maldição. A esquerda foi para o caminho errado quando adotou estas categorias, que estão no centro do capitalismo. Mas devemos especificar que inoperosidade, da forma como a concebo, não é nem inércia, nem uma marcha lenta”.

“Precisamos nos libertar do trabalho, em um sentido ativo – eu gosto muito da palavra em francês désoeuvrer. Esta é uma atividade que faz todas as tarefas sociais da economia, do direito e da religião inoperosas, libertando-os, assim, para outros usos possíveis. Precisamente por isso é apropriado para a humanidade: escrever um poema que escapa a função comunicativa da linguagem; ou falar ou dar um beijo, alterando, assim, a função da boca, que serve em primeiro lugar para comer”. 

“Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles perguntou a si mesmo se a humanidade tem uma tarefa. O trabalho do flautista é tocar a flauta, e o trabalho do sapateiro é fazer sapatos, mas há um trabalho do homem como tal? Ele então desenvolveu a sua hipótese segundo a qual o homem, talvez, nasce sem qualquer tarefa, mas ele logo abandona este estado”.

“No entanto, esta hipótese nos leva ao cerne do que é ser humano. O ser humano é o animal que não tem trabalho: ele não tem tarefa biológica, não tem uma função claramente prescrita. Só um ser poderoso tem a capacidade de não ser poderoso. O homem pode fazer tudo, mas não tem que fazer nada.”

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