Liz X Lisa: as musas opostas do ethereal

Música ambiente, new age, eletrônica e doses de indie rock: estes talvez sejam os ingredientes do ethereal, um estilo musical tão pouco difundido quanto instigante.
Também conhecido como dream pop ou darkwave, os artistas desse gênero fazem com canções o equivalente ao que impressionistas como Van Gogh ou Monet faziam na pintura. Suas marcas registradas são sonoridades esparsas, cheias de efeitos como reverb e delay, que prolongam as notas e dão uma idéia de largos espaços vazios, solitude, distanciamento do mundo material e cotidiano. Há também quem vincule o ethereal à música gótica (ou gothic rock).
Os dois maiores nomes do gênero são os Cocteau Twins e o Dead Can Dance. Apesar de se abarcarem sob as asas de um mesmo estilo, são duas bandas que me parecem muito diferentes. A começar por suas principais vocalistas, extremamente opostas entre si.
Liz Fraser
Liz Fraser, dos Cocteau Twins, tem algo de frágil, parece que vai se despedaçar caso alguém se aproxime dela com muita intensidade. Ao vivo, tal impressão é ainda maior, e há quem diga que sua aversão à apresentações e shows foi o que ocasionou o fim do grupo.
Por sua vez, Lisa Gerrard, do Dead Can Dance, transmite a idéia de uma mulher forte, imponente, indubitavelmente presente. Seu olhar é firme, e seu porte físico e figurino transmitem uma indelével personalidade. 
Lisa Gerrard
A imagem transmitida por essas musas ethereais diz muito sobre suas respectivas bandas. O Cocteau é música espacial, suave e quase que flutuante na maior parte do tempo. Já o Dead Can Dance tem um som predominantemente concreto, com percussões marcantes, quase tribais em alguns momentos (obviamente, o repertório geral de ambas permitem leituras mais profundas, e apresentam outras nuances, mas essas que apontei me parecem as principais).
“Carousel”, de Robin Guthrie
As imagens e sensações evocadas por essas sonoridades costumam agradar a quem tem relações sinestésicas com a música, ou seja, relações sensoriais, para além do filtro racional. Uma vez, um amigo meu comentou que, ao ouvir Cocteau, visualizava coisas que pareciam extraídas de um compêndio de medicina ou biologia, como células, moléculas, mitocôndrias, etc (alguns discos solo do guitarrista do CT, Robin Guthrie, tem capas com esse exato tipo de imagem). Totalmente diferente de mim, que costumo imaginar arquiteturas exóticas, cidades e luzes. Cada canção é única, mas a gama de sensações é tão vasta quanto forem os seus ouvintes.
Dead Can Dance
Ao rastrearmos as influências do som do Dead Can Dance, podemos perceber uma espécie de mistura étnica e multicultural, com ares de world music. É o equivalente musical ao conceito de “mestiçagem”, utilizado para as misturas culturais feitas por países latino-americanos – só que no caso deles funciona em nível global, apesar de uma interpretação meio que diáfana e psicodélica, ao modo ethereal.
O Cocteau Twins já evoca o oposto: parece uma banda quase que “aculturada”, uma banda de lugar nenhum. Isso graças a suas melodias de acento pop, além das timbragens etéreas o suficiente para situar seu trabalho longe de qualquer traço cultural reconhecível.
Cocteau Twins
Ainda sobre o CT, o fato de Fraser cantar letras ininteligíveis contribui muito para que a banda tenha sua aura inclassificável. Sim, é isso mesmo: as letras do Cocteau se resumem à sua sonoridade, e quase sempre são desprovidas de significado, como uma “torre de babel” às avessas. Por nada dizer, deixam ao ouvinte a tarefa, muitas vezes inconsciente, de imaginar possiveis sentidos; se quiser.
Atualmente, as musas retornaram, meio diferentes: muitos fãs não reconheceram Gerrard, que, apesar de trajar o figurino de sempre, fez uma cirurgia plástica nos lábios. Fraser, por sua vez, deixou os cabelos grisalhos se alastrarem. 
Trivialidades a parte, o aspecto musical continua ótimo, uma vez que Lisa voltou com o Dead Can Dance, lançando um fantástico album, Anastasis, e saindo numa turnê mundial com o grupo. Liz voltou aos palcos, e críticos elogiaram sua performance, comentando como sua voz soa intacta, e suas releituras dos antigos clássicos dos Cocteau Twins pareceram brilhantes. 
Fraser ao vivo no Meltdown Festival (06/08/2012)
Anastasis (2012), novo disco do Dead Can Dance
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