Paz, amor e consumo

Paz, amor e consumo

Esta é a parte 1 do ensaio “Porque somos tão obcecados pelos anos 60 e 70″.

Saiba mais aqui.

A geração que nasceu no fim da segunda guerra mundial chegava à adolescência bem nos anos 60. São pessoas que cresceram sob a sombra de uma hecatombe nuclear que assolaria o mundo a qualquer momento. Para esses jovens, o mundo de seus pais era algo que deveria ficar para trás. “Faça amor, não faça guerra”, dizia o filósofo frankfurtiano Herbert Marcuse, sintetizando um lema que marcaria desde o “bed-in” de Lennon e Yoko até à narrativa do premiado musical Hair.

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Atenção, jovens brasileiros do século XXI, não façam isso em casa!

Se a indústria bélica americana tinha demandas que não pareciam adequadas aos anseios juvenis, a indústria cultural acabou por abraçar (leia-se “capitalizar”) os desejos de toda uma geração – paz, amor, e diversão. Soma-se a isso o fato de que os bens de consumo se beneficiaram de um “upgrade” tecnológico da época, como as TVs à cores (inovação que também beneficiaria o cinema).

No caso da música, isso era notável em diversos aspectos: agora os artistas podiam fazer grandes shows ao vivo em estádios (e dá-lhe Woodstock, Isle of Wight, Altamont, etc.), aperfeiçoamento dos instrumentos valvulados (guitarras de diversos modelos, pedais de distorção, wah-wah, e outros; sintetizadores como moog, mellotron e hammond, etc.), além do som estéreo (e, posteriormente, o quadrafônico), tudo isso registrado em estúdios de gravação com diversos canais disponíveis simultaneamente.

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Pink Floyd Ostentação

Além do mais, as gravadoras agora aperfeiçoavam a “embalagem” de seus produtos, através das capas dos discos, e cada vez mais introduzindo um merchandising paralelo à música, como posters, camisas, shows em vídeo, e outros badulaques.

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Foi um momento em que o grande sonho de uma geração se viu representado pela indústria de massa. Havia ressonância entre a cultura jovem – de elite ou da periferia, do primeiro ou do terceiro mundo – e os produtos que chegavam às prateleiras dos comércios. Creio que o fato de toda a ideologia e rebeldia da época ter sido capitalizada não diminui a sua validade. Prova disso é que a mensagem de boa parte dos artistas daquele tempo duram e são apreciadas ainda hoje. Uma letra como a da canção Imagine não assume um tom hipócrita simplesmente porque o disco de John Lennon está à venda em uma loja.

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You Never Give Me My Money

Fashion 60Para nós que vivemos no século XXI, a cultura dos anos 60 e 70 é o melhor de dois mundos: são conteúdos que atendem nossos anseios de massa, de entretenimento pop, bem diferentes da arte de outras épocas, mais codificada, intelectualizada, e sem potencial de ser espetacularizada. Por outro lado, soava verdadeira, íntegra, sincera, apesar de sua faceta capitalizável.

Claro que a maneira como essa relação arte-comércio se operava é bem diferente de hoje em dia. Vendia-se muitos discos, e isso era o elemento principal. Artistas e gravadoras não precisavam pensar em ganhar dinheiro através de shows, jabá, merchandising, ou de trocentas versões remasterizadas de um trabalho. Não que essas práticas paralelas não existissem: contudo, a vendagem dos discos sustentava toda a estrutura. O inverso de hoje em dia, onde a música gravada circula em um fluxo de gratuidade, através do compartilhamento de mp3, vídeos do you tube, streaming, etc. Gravar e divulgar música tornou-se quase que um “cartão de visita do artista”, para que ele possa vender todas as outras coisas que nem sempre se relacionam com a música em si.

Assim, a música era valorizada, e não apenas no aspecto monetário. Na minha família, por exemplo, contam-se histórias que hoje em dia soam folclóricas, sobre como alguns parentes meus se encontravam com frequência para ouvir música juntos. Pois é, não era para conversar, jogar baralho, estudar, ou tomar cerveja (ok, talvez rolasse um cigarrinho estranho, no máximo…). O ponto nevrálgico por trás do encontro era ouvir música. Colocavam um vinil (quase sempre do Pink Floyd) na vitrola, desciam a agulha, e ficavam quietos durante trinta ou quarenta minutos, apenas ouvindo o som. Algo impensável em nossa era de visualidade e interatividade.

Hoje em dia, a música é quase que uma trilha de fundo para qualquer outra coisa. Como se o mundo tivesse se transformado em uma gigantesca sala de espera de consultório odontológico. Música transformou-se em ruído de fundo, em adereço, sob o qual tantas outras coisas são comercializadas: roupas, filmes, ingressos de festival. O universo musical e seus artistas são, ainda mais que antigamente, carimbos simbólicos que legitimam as diversas tribos urbanas. O som que uma pessoa ouve está diretamente conectado com quem ela é ou quer ser.

Não que não fosse assim no passado – mas, pelo menos antigamente, ouvia-se música. Hoje em dia, com a baixa qualidade dos mp3, e a alta oferta por conteúdo na internet, talvez se ouça mais música em geral, mas certamente presta-se pouca atenção no que é ouvido. A ironia é que, no mundo da música, as ambiências sonoras talvez tenham deixado de ser o aspecto mais relevante.

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Leia a parte 2 do ensaio, The Analogical Song: o mundo antes dos bits.

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