Sobre Meritocracia

Comer, procriar, criar

O ser humano tem, basicamente, três impulsos fundamentais na vida:

1- sobrevivência,

2- reprodução,

3- criatividade.

Jean Baptiste Debret – Um Jantar Brasileiro, 1827.

É com a satisfação desta pirâmide que conseguimos encontrar algo que entendemos como felicidade. Com condições dignas de viver bem, ter comida na mesa e acesso aos serviços (1), uma família e um entorno de pessoas para conviver (2), e uma atividade que pode ser o ganha-pão (1, ou 1e3) ou algo apenas para satisfação pessoal (3).

Aí entra uma palavrinha mágica: qualificação. Eu encaixaria esta etapa no impulso 3, criatividade. Porque qualificar é criar um arcabouço de conhecimentos, é criar estruturas materiais ou imateriais. O conhecimento não é nada mais que uma estrutura mental capaz de amarrar informações soltas. Ao longo da qualificação, a pessoa precisa ter acesso a essas informações e, baseada na estrutura que lhe é comunicada, criar suas próprias estruturas.

O grande problema é que existe uma relação entre os três impulsos fundamentais, e uma dinâmica. A ordem de 1,2 e 3 não é aleatória. De fato, o 3 (criatividade) não pode vir antes do 1 (sobrevivência). O amor não paga as contas. Não se cria de barriga vazia.

Pobres e ricos

Pintura de Jules Bastien-LePage

Aí entra a questão das classes – econômicas, sociais, etc. Dizem que isso é papo de comunista. Bem, se você quer acreditar que o Bill Gates está em igualdade de condições em relação à Estamira, aí é por sua conta. Mas estou trabalhando com um raciocínio que considera as classes – e o abismo entre elas, sobretudo em países de terceiro mundo e emergentes como o Brasil.

Pois bem. A grande questão é que a sobrevivência é mais ou menos acessível, segundo a classe econômica em que a pessoa se insere. Uns dependem de todo o seu tempo livre para criar condições de sobrevivência, outros, de uma parte considerável dele, outros de ainda menos. Há os que tem muito tempo livre, e outros, pleno tempo livre.

Pré-conceitos

Ok, o raciocínio estava mais ou menos linear até aqui, e falávamos de questões ligadas ao impulso da sobrevivência (1). Vamos introduzir um ponto novo, algo bem familiar e facilmente reconhecível.

Esse aspecto oscila entre os impulsos 1 e 2 (sobrevivência e reprodução). Tem a ver com supertições, com tabus, com lugares-comuns, com frases feitas. Tem a ver com ideias meio tortas que se cristalizam nas sociedades, como ervas daninhas na história dos povos, germinando de leituras equivocadas do passado. Estou falando de preconceitos. São “pré” porque antecedem os conceitos, são pré-concebidos. Surgem antes do raciocínio. Assim, costumam ser ideias mais apaixonadas e menos racionais.

Cabem nessa “gaveta” dos preconceitos questões que envolvem: gênero (homens como sendo superiores às mulheres), raça (brancos como sendo superiores a negros/índios/pardos/etc.), idade (jovens como sendo superiores a velhos, ou o contrário), origem (pessoas do centro como sendo superiores as da margem), preferência sexual (heteros como sendo superiores a homos ou bis), e isso para ficar apenas em preconceitos universais.

Através das barreiras de preconceitos, as mobilidades dos corpos no espaço simbólico da sociedade não são mais as mesmas. Alguns símbolos são dados de bandeja para certas pessoas, enquanto outros símbolos são negados. Nem tudo é acessível. Assim como um emprego pode estar mais próximo de uma pessoa branca que de uma negra, o espaço da favela é mais acessível ao negro que ao branco. As barreiras são invisíveis, mas elas existem (e persistem) através do tal do preconceito.

É fácil negar o preconceito, talvez mais fácil que negar as barreiras materiais do dinheiro e das classes. Porque são calcadas em noções imateriais, sociais e culturais, que podem ser facilmente mascaradas pelo discurso politicamente correto e macio. Na prática e no cotidiano é que essas barreiras se revelam.

Cordialidade

Johann-Moritz Rugendas – Família de fazendeiros, 1825.

Acha que esses mecanismos são já algo muito complexo? Pior é que tem mais – e envolve o aspecto 2 (reprodução).

No caso do Brasil, há o que Sérgio Buarque de Holanda chama de homem cordial. Se você pensa que isso envolve esse lado receptivo e carinhoso do brasileiro, esqueça. É um pouco mais complicado entender o homem cordial, apesar de ser um fenômeno super presente na nossa vida tupiniquim.

Essa condição, supercomum no país por tempos imemoriais, foi conceitualizada pelo historiador em 1936, tornando-se um dos grandes ensaios conhecidos para entendermos características peculiares do brasileiro. Recomendo a leitura (presente no capítulo 5 do clássico livro Raízes do Brasil) para aprofundar.

Em uma definição rápida, envolve a visão do patrimônio público como sendo algo privado. Assim, há uma visão patrimonialista das coisas, onde relações íntimas substituem as relações profissionais. Um terreno fértil para que surjam as indicações, os nepotismos, os QIs, favorecimentos, e toda série de distorções do estado de direito, da máquina pública, do profissionalismo. O mérito é sutilmente substituído pelos “favorzinhos”, atalhos obscuros que não tem tanto a ver com esforço pessoal ou talento ou oportunidades igualitárias.

Meritocracia: onde? como? porque? para quem?

Manuel Dias de Oliveira – Alegoria ao nascimento de D. Maria da Glória, 1819.

Além do futebol, uma das maiores paixões do brasileiro são as novelas. Este é um elemento ligado ao impulso número 3 na escala das relações fundamentais, e talvez seja o entretenimento mais acessível aos brasileiros. Afinal, é barato e imediato (por isso, não interfere na sobrevivência – 1), é de fácil assimilação (dá para ver e comentar com a família – 2), e não interfere no horário de trabalho (dá pra ver depois do expediente, e dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte – 1).

Lembram que falei lá em cima sobre a ordem dos impulsos? O de número 3 (criatividade) dependendo antes do 1 (sobrevivência) e do 2 (reprodução)?

Tudo isso para falar sobre meritocracia. No dicionário; “Meritocracia: (do latim mereo, merecer, obter) é a forma de governo baseado no mérito. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento, e há uma predominância de valores associados à educação e à competência“. Ou seja: crer que a pessoa teve condições de conquistar algo e o fez por esforço próprio, podendo então receber o mérito por isso.

Voltemos com a ideia de criatividade como submissa às necessidades de sobrevivência e reprodução. Agora, pensemos que essas necessidades de sobrevivência e reprodução tem pesos e graus diferentes para classes diferentes (é mais difícil para um pobre sobreviver e constituir família que para um rico). Nesse caso, a meritocracia faria sentido? Se existem acessos maiores ou menores para a qualificação? E também os tabus e preconceitos? E, como se não bastasse, as relações pessoais no Brasil que podem assumir um lado pouco ético, a mercê dos “homens cordiais”?

“A Little Help from my Friends”

Vamos sair um pouco desse contexto brasileiro, e pensar na meritocracia por um viés mais universal.

Ao ler a biografia dos Beatles anos atrás, lembro de pensar que, se qualquer pessoa no entorno deles tivesse agido de forma um pouco diferente da que podemos acompanhar na história da banda, talvez eles hoje em dia fossem marinheiros velhos e bêbados nos cais de Liverpool, relembrando a juventude boêmia dos anos 60, amargando a escassez de dinheiro e fama.

Não adiantaria Lennon e McCartney serem ótimos compositores: se tia Mimi não comprasse um violão para John na adolescência, ou a mãe de George não incentivasse incondicionalmente o filho, ou se Brian Epstein não fosse um empresário tão visionário, ou se George Martin tivesse recusado os Beatles como os produtores da gravadora Decca fizeram alguns meses antes. Não teriam havido discos, nem shows, nem turnês, nem Yesterday; em suma, nada de Beatles como os conhecemos. E estamos falando da maior banda do mundo.

Sobre o amor

El Greco – São Paulo

O texto vai chegando ao fim, e deixo uma crença minha sobre essa questão do mérito e das oportunidades: a de que ninguém nesse mundo consegue avançar na vida se não houver amor. As ilhas são estáticas, e ser uma ilha é permanecer no mesmo lugar. Amar: dentro dessa palavrinha está contida a palavra “mar”, essa imensidão de água, sempre se movendo, avançando, retraindo, no ritmo do universo que se expande desde o big-bang. O ser pode ser ilha, e parar; ou então escolher dançar e mover, sendo mar (sem domar).

Como diz São Paulo na carta aos Coríntios, “sem amor eu nada seria”. Não basta o talento, ou a perseverança; há de ter amor por trás. Ou nada acontece.

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